Li e terminei a leitura a uns dias atrás do livro "A vida que ninguém vê", da jornalista e colunista da revista Época, Eliane Brum, já comentei sobre ela aqui. Esse livro me fez questionar, mais uma fez a vida que levamos. É um livro daqueles que cada página faz você voar, flutuar em nuvens de pensamentos. A vida é tudo aquilo que esperamos realmente? Até que ponto podemos ou devemos chegar?
O livro é formado por crônicas da vida de anônimos que residem e vivem em Porto Alegre no Rio Grande do Sul. Há pessoas que lutam todos os dias, aliás todos os momentos, pela sua sobrevivência nesse mundo de cão. E essas pessoas que para uns são insignificantes possuem histórias simples e marcantes. O que faço para mudar isso? O que você faz para que isso mude? Quais as minhas atitudes diante do próximo? Neste momento me veio a cabeça, aquelas pessoas que encontramos geralmente no metrô, ou em pontos de ônibus, que nos pedem dinheiro, eles vão realmente para onde dizem que vão? E de onde sai tanta gente? (mas esse é outro assunto). Até que ponto podemos confiar e os ajudar? Devo questionar isso a ajudar alguém?
Dias atrás, sentada com algumas amigas na mesa de um boteco na Alameda Santos, uma garotinha mirrada, de pele morena, com ranho espalhado pelo rosto e com roupas sujas nos abordou pedindo dinheiro, um trocado qualquer. Meio pegas de surpresa eu não tive reação, minha amiga que estava ao meu lado ofereceu a ela, Camila, Cristina, Carolina, nunca vou descobrir seu nome, um salgado, ou um lanche. Pela aparência que descrita acima ela nos parecia ser alguém que estava com fome. Mas quando ela ofereceu o alimento a menina simplesmente nos respondeu que tinha acabado de comer. Fui pega de surpresa mais uma vez. Se ela está perambulando pelas ruas acreditamos, digo por nós simples e meros mortais que graças ao nosso esforço, de nossos pais ou de quem quer que seja podemos doar aos que necessitam uma ajuda, que aceitasse a doação. Mas não, para que ela usaria o trocado? Há alguém por trás dela? Ela realmente mora nas ruas?Ao contrario disso, em outro bar, mas agora na Frei Caneca, um senhor bem velho, meio sem dentes, com a barba sujando a face abordou a mesa em que eu estava e nos disse, com a maior e a melhor sinceridade que havia dentro dele, que estava ali pedindo um troco, moedas para que ele comprasse a "barrigudinha" dele, para quem não sabe, essas "barrigudinhas" são garrafinhas redondinhas e pequenas, vendidas em supermercados com bebida alcoólica. Agora eu tive certeza do destino desta "boa ação".
No livro ela descreve em um dos capítulos a vida de uma garotinha chamada Camila, que pedia dinheiro em faróis abordando as pessoas com poemas, neste momento a autora tenta nos alertas sobre o fato de nós olharmos e não enxergarmos que existem várias Camilas nas ruas. Mas me ponho a pensar, ao ser abordada por uma Camila e tentar ajudá-la, ela nega. O que me resta fazer?
Todos são anônimos para os olhos do mundo. Quantos deles vivem e morrem sem que ninguém saiba de sua história?



